José Alberto Cuminato, docente do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC-USP), é o pesquisador selecionado pelo Programa Ano Sabático do IEA na edição 2025. Ao longo de sua trajetória acadêmica, apresentou sempre o interesse pelas aplicações da matemática na vida real.
Isso se concretizou, para ele, por meio da relação estabelecida entre a universidade e a indústria. Essa mesma relação se tornou, ao longo da última década, palco para o aprendizado de muitos de seus alunos. Foi na busca por soluções específicas para os problemas apresentados pelas indústrias parceiras que eles puderam ver a teoria aprendida na sala de aula se transformar em algo tangível.
Cuminato, mais conhecido no meio universitário como Poti, devido ao nome de sua cidade de origem – Potirendaba -, pretendia ser biólogo quando adolescente. No entanto, a influência de sua professora de Matemática no Ensino Médio fez com que seu interesse mudasse na hora de prestar o vestibular.
Superando diversas circunstâncias, cursou a graduação em Matemática em São José do Rio Preto, realizou o Mestrado no Campus da USP em São Carlos e, em 1987, concluiu o doutorado em Oxford.
Foi durante o curso de doutorado na Inglaterra que sua perspectiva sobre as aplicações da matemática se expandiu.
Existia, no período em que esteve no país, um Grupo de Estudo com a Indústria, que era um projeto de férias no qual grandes empresas se inscreviam para apresentar os problemas que dependiam do desenvolvimento de novas tecnologias para serem solucionados.
“Eu achava aquilo muito interessante, porque era uma oportunidade de conversar com acadêmicos e doutorandos que estavam trabalhando na indústria. Naquela época, eram grandes indústrias como a British Rail, British Airways, ICI e outras que vinham para dentro da universidade, trazendo desafios e problemas em que os alunos se envolviam.
No final das contas, muitas vezes, os alunos conseguiam emprego. Eu achava aquilo muito interessante do ponto de vista de ter uma técnica de aproximação entre esses dois públicos.”
Voltando ao Brasil, o pesquisador desejou implementar projeto semelhante. Contudo, naquela época, não havia um ambiente receptivo para tais ideias.
Décadas se passaram e, somente por volta de 15 anos atrás, ele pode iniciar o projeto na USP. Cuminato já estava próximo da aposentadoria e isso lhe dava liberdade para se arriscar em algo novo. O contexto também havia mudado e era mais favorável ao diálogo entre a universidade e empresas, sendo este, inclusive, estimulado pelas agências de fomento.
Nasceu, assim, o Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) financiado pela Fapesp. Agora o projeto envolvia diversos professores e estudantes, dispunha dos recursos necessários e da duração suficiente para obter resultados mensuráveis.
Ao longo dos últimos 11 anos foram muitos os resultados obtidos, desenvolvendo novas soluções tecnológicas, complementando o ensino dos alunos da graduação e pós-graduação, formando alunos em mestrado profissional, entre outros.
“A gente tem no site vários projetos. Projetos com a Petrobras, com a Porto Seguro e com várias outras grandes empresas. Na época da pandemia, o governo do Estado se aproveitou dos nossos testes para prever como a pandemia iria se desenvolver. Hoje a gente tem um programa que vai trabalhar com Tribunais de Contas, com a Câmara dos Deputados e com prefeituras.”
O professor conta que seu objetivo ao participar do Programa Ano Sabático foi enxergar no IEA um fórum onde pudesse defender uma maior integração das unidades de ensino do Campus, favorecendo a busca por soluções tecnológicas cada vez mais interdisciplinares.
“ Eu acho o IEA uma ideia genial. Eu acho que a universidade tem que ter um organismo que junta as expertises de todas as áreas. Colocar gente junta para fazer coisas mais arriscadas, sem tanto compromisso com o resultado imediato. Toda grande universidade no exterior tem um instituto como o IEA. Um local que congregar as melhores cabeças da universidade, de diferentes disciplinas e as colocar para pensar juntas.
Eu gostaria que essa ideia de trabalhar com a indústria fosse uma coisa mais pervasiva dentro da universidade e achei que o IEA fosse um bom fórum para eu militar, embora localmente.”
Ao longo da duração do Programa Ano Sabático, o professor Cuminato vai desenvolver o projeto de pesquisa proposto e organizará dois eventos abertos ao público, seguindo a temática da relação entre a universidade e a indústria.
Assista a entrevista na íntegra aqui:
